
Óquei. Eis que um belo dia você se dá conta de que os anos passam, as pessoas mudam (para pior, sinto lhe informar) e, sim, seus ancestrais tinham completa razão quando diziam que o ser humano realmente não tem limites (com o perdão do eufemismo). Ninguém se respeita, é cada um por si e - com sorte - oxalá por todos, as pessoas se julgam indiscriminadamente e o caos é regido pela tolerância zero. Tipo, uma merda.
Porém, como nem tudo está perdido e existem sim, personas evoluídas nesse mundão de meu deus, estou bem pensando em acionar meu networking super-vip e lançar um novo curso: “Sobre O Que Importa Na Vida e a Arte do Desapego”, uma espécie de extensão do “Sobre o Verdadeiro Fim e a Arte do Esquecimento”, seminário anunciado aqui nesse blog no ano passado. O objetivo, vale sempre explicar, é incentivar os ouvintes a evoluir nas escalas de seus pensamentos e sentimentos. Confuso? Explico.
O primeiro módulo será ministrado pelo mestre Paulo Coelho, claro. Além de mago, ele é ainda membro da Academia Brasileira de Letras. Tipo, gênio. Com ele, os alunos aprenderão que sim, é possível coçar até os quarenta, usar várias drogas, ficar doidão e, de quebra, ainda se tornar multi-milionário. Ou seja, o objetivo dessa primeira etapa de aula é basicamente mostrar que dá sim para ser feliz sem entrar no esquema.
O que? Você acha que o Paulo Coelho é ruim e não presta para aula inaugural? Não faz mal, afinal (oh, rimou!) um dos objetivos principais do curso é justamente ensinar a não ligar pro que os outros pensam. Logo, o conselho organizador desse barraco não dá a mínima para sua antipatia.
Vamos ao segundo módudo, esse sim, muito, muitíssimo importante. Muito mesmo. Nele, os alunos serão convidados a tirar a roupa e ficar peladões durante toda a aula. Assim, rapidamente sentirão frio, calor, vergonha, tesão etc etc etc. Quando já tiverem bem avonts, acostumados uns com os outros do jeitinho que vieram ao mundo, pronto, serão estimulados a escrever uma redação individual sobre o que acharam do coleguinha ao lado. Diante da possibilidade de ser humilhado publicamente, o aluno certamente enaltecerá as características positivas de outrem. O tratamento é de choque, eu sei, mas a humildade é ensinada instantaneamente, acreditem.
O mestre do terceiro módulo é o ilustríssimo Karl Marx (amém!). Com as lições da nossa apostila psicografada, os alunos retomarão toda aquela groselha de mais-valia, modo de produção e blah blah blah. O intuito é eles se darem conta de que carreira profissional não passa de manipulação da massa. Assim, se tudo é uma grande exploração, vamos parar de querer gongar os colegas da firma, meudeusdocéu! E se mesmo assim você sentir que a sua vocação é puxar o tapete, trate de pleitear uma vaga na Tabacou e seja feliz pra sempre.
O último modulo do curso será ministrado pelo Dalai Lama. Em uma vídeo conferência na calada da madrugada (por conta do fuso, lógico!), os alunos aprenderão a amar uns aos outros e a cultivar sentimentos nobres como a compaixão, a bondade e tudo mais. Nele, todos aprenderão a cantar o mantra do Amor Total, em manganês. E se você não se dá muito bem com idiomas, no worries! Somos democráticos e o mantra poderá ser facilmente substituído por canções populares como “All We Need Is Love” ou “Positive Vibration”. O importante é manter o sorriso e a leveza, por que dessa vida, people, não se leva nada.
Para finalizar o post, claro que o conselho do curso entende que a humanidade é uma massa em evolução e portanto, incapaz de reconhecer a própria deficiência. De olho nisso, desenvolvemos um “Vale Desapego”: em vez de se auto- matricular, você poderá envia-lo aos outros, de presente.
Inscrevam seus vizinhos mal educados, chefes que abusam do poder, passantes inconvenientes, ex-namoradas do seu atual namorado, aspirantes a tapeceiros deslocados que foram parar ao seu lado na firma, enfim, todo mundo que merece uma grande lição.
Enviaremos um e-mail anônimo com o formulário de inscrição e, pronto. Ao final do curso convocaremos você para a reunião de pais-emocionais, que é pra dizer se o pupilo foi aprovado! Ou não.